terça-feira, 27 de março de 2012

sobre doença e final feliz: la parenthèse de Elódie Durand.




sabe quando a leitura vira soco? La Parenthèse de Élodie Durand desancou meus sintomas (?) de menina doente.
as crises epilépticas e as recorrentes perdas de memória de Judith, segundo nome da autora, anunciam o domínio vulnerável de um corpo anacrônico. endereçada à mãe a história desmonta um núcleo de significação retilínea a partir do emprego dos flashbacks que ajustam uma lógica menos onisciente ao enredo.
o romance gráfico explora um território ocupado por camadas de vozes que reverberam a dor, a esperança, o tratamento e a possível cura seja no quarto da protagonista ou nos confins das salas de raio x. o percurso da doença, um câncer cerebral, está encarnado nos traços que manifestam os descompassos entre o corpo atrasado, confuso que tomba e o tempo progressivo dos outros.
o apelo ao disforme, desenhos rascunhados, em alguns momentos da narrativa reflete a ânsia da jovem não se diluir no desconforto, no abismo das crises. o repertório autobiográfico desses desenhos em preto e branco forjados na inquietação, nas batalhas cotidianas evoca a presença de Epiléptico de David B.
metamorfoseada em parênteses de uma vida que segue, a doença se torna peça de uma memorabília pronta para envelhecer com saúde e sonhos.



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