sexta-feira, 9 de março de 2012

o dia do sorriso:


a imaculada sensação de um sonho realizado não se conforma ao espaço ditado pela fotografia ou pela resenha. além de surrupiar o trajeto da lógica narrativa a ansiedade embaralha os efeitos do corpo alegre que em comunhão com anônimxs metamorfoseia sonhos em coro, palmas e lágrimas.
a notícia da turnê sulamericana de Steven Patrick Morrissey encadeou uma miríade de desarranjos em uma rotina desgastada pela ausência do temido foco. insônias brancas, mãos roxas, lábios doloridos. Os diagnósticos do pânico e os efeitos dele foram encaçapados ainda nos preparativos da viagem que durou o tempo certo para os olhos apertados sentirem o abandono do desespero.
Belo Horizonte é uma capital que confunde, mistura ruas largas picotadas por canteiros de árvores médias, flores anãs e cimento com os passos miúdos de pessoas que povoam o centro, as lanchonetes, as bancas de revistas.  O hotel na savassi perto do chevrolett hall, congênere do marina hell em Brasília, estreitava a distância com o show marcado para às dez da noite.
antes da entrada rostos amigxs daqui ensaiavam a felicidade que arrebentaria feito bombas naquele ginásio. depois da apresentação de Kristeen Young os olhos nossos invadiram uma cortina de videoclipes absurdos que compuseram um prelúdio furioso para a entrada de Morrissey. Nesse repertório que garantiu ao proscênio uma aura de cinema apareceu nico, new york dolls, sparks, shocking blue  e françoise hardy.
Morrissey apareceu acompanhado de seus músicos que irremediavelmente lembravam os rostos dos atores de Saló. Um show repleto de canções dos Smiths, povoado pelas performances fulminantes daquele de braços compridos e camisas vibrantes, que lançadas tão perto desconfio que dilaceradas.
Ali os gestos cinematográficos do poeta escapavam dos lances das máquinas proibidas e presentes.
Não chorei. Um sorriso largo com feitio de abraço quente vem me acompanhando desde lá.

por Ludimila Moreira Menezes. 

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