sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A vendedora de fósforos:

Encontre uma profissão pra asmáticos, pedi à minha irmã ao ser levada. Ia pensar também se conseguisse. É importante ter alguma coisa em mente enquanto o vapor invade o nariz.(Lunardi, Adriana. 2011. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco).

irremediavelmente próximo e bonito. Declino, aqui, do projeto de enquadrar A Vendedora de Fósforos na galeria dos romances que exaustivamente exploram o duplo.
As tramas fraternais, os dilemas que percorrem o estatuto da infância que é declaradamente não provisória, as expectativas que escalonam o devir-adulto dificultam a atuação do legado taxionômico da crítica.
Nos jogos narrativos da memória suspensa e pinçada o familismo nômade e seus efeitos funcionam tanto como estopim de uma saga autobiográfica, como razão do esfacelamento de uma rede de afetos consanguíneos. No transcorrer do romance são desferidas angústias ao ordenamento positivo inculcado na dupla causa-consequência que insiste em ofertar posições, desocupadas principalmente pela narradora.
O acesso ao espaço familiar é viabilizado através de uma amálgama de lembranças, de um lance de olhos ao passado desconcertante dos irmãos em performático desarranjo com a matriz de idiossincrasia parental. Cabe a literatura, como ente orgânico, dilatar nossa imersão em um território fragmentado de transtornos, de silêncios, de desapegos, de códigos e repleto de iminências de viagens, novas escolas, novos bairros, novas ausências.
Em uma espécie de proscênio garantido e limpo a cada página escrita a narradora, uma escritora, enfrenta um retorno empurrado pela última tentativa de suicídio da irmã que não vê há alguns anos. Longe das apostas aos paroxismos que ludibriam o incerto, irmandade e morte se desmancham em palavras, rastros de vidas que conjuram a teleologia.



Nenhum comentário:

Postar um comentário