quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

David B. e seu Pequeno Pirata:





O limbo marítimo é o espaço fantástico eleito por David B. onde aventuras, a busca pela redenção, os mistérios ontológicos forjam as rotas do lendário e célebre navio fantasma, o Holandês voador, repleto de piratas e suas ansiedades que se deslocam entre aqueles corpos esqueléticos ávidos pelo controle da errância, cansados da falta de prumo no único cenário impossível o mar, os oceanos.

Lançado na França em 2009, pela coleção Fétiche da Editora Gallimard, Le Roi Rose, é a materialização de um sonho do quadrinista de adaptar um conto da coletânea intitulada Chronique des jours désespérés publicados em 1927, de Pierre Mac Orlan. Aqui, no Brasil a grafic novel, Pequeno Pirata (2011), sai pela editora Barba Negra traduzida por Maria Clara Carneiro.

O ritmo macabro anunciado pelo contraste entre a luz e a escuridão, pela mimetização fantasmagórica dos roteiros e performances de um passado infinito nos espreitam e nos capturam para uma dimensão de acontecimentos absurdos como os recifes que insistem em se afastarem da tripulação, os naufrágios frustrados e a adoção de uma criança remanescente de um navio por eles atacado. É dessa lúdica convivência atravessada pelos projetos sádicos dos piratas algozes à criança, o rei rosa, que a narrativa recupera outras versões e dinâmicas dessas vidas. 

Entre a invisibilidade e a falência desses personagens o fluxo poético transfigura o itinerário e as escolhas da morte que está sempre em fuga da realidade desconcertante dos piratas. David B. parece imbatível nas suas negociações gráfico-literárias com a dor, a culpa, a morte. Um livro bálsamo.

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