quinta-feira, 16 de junho de 2011

Não se come aqueles com quem se brinca

Retirado do blog: As vontades de Raquel

escrito por @lclaudiasf

Não se come aqueles com quem se brinca

Naquela noite, pai, mãe e as três crianças saíram para um passeio na Praça dos Três Poderes. Estava acontecendo um evento cultural com música, exibição de curta-metragem produzido por artista da cidade; além de vários telescópios estarem à disposição das pessoas que tentavam desvendar um pouco mais os mistérios celestes, numa noite de eclipse lunar.

Na praça de alimentação improvisada, delícias de milho eram servidas quentinhas. Pediram milho verde e pamonha de doce. Antes de comer, o filho menor perguntou:

— Milho é bicho???

Em seus quatro anos de vida, milho sempre foi algo que ele comia com grande prazer, mas já fazia algumas semanas que, antes de se alimentar, precisava se certificar de que não estava comendo nenhum bichinho.

Além de astronauta e piloto de avião, ele já tinha dito que seria médico de bichos quando crescesse. E, não restavam dúvidas de que, depois de passar aquelas férias na casa de parentes no interior, entre galinhas e pintinhos, e, também, porquinhos (com nomes próprios e que passeavam no colo, de banho tomado e fita colorida no pescoço), aqueles lindos bichinhos não poderiam ser apenas suculentas carnes em seu prato. Tinham se tornado para ele parceiros de aventura, amigos com os quais podia trocar abraços calorosos e viver histórias incríveis! Não podia simplesmente fechar os olhos e ignorar que aquele frango em pedaços no seu prato (coração, peito, coxas...) era um amigo em potencial que agora iria devorar. Passou a recusar frango.

E como os outros bichos que são servidos como alimento dificilmente preservam nas bandejas sua forma bichesca original (um bife, por exemplo, em nada lembra a gigantesca vaquinha), passou a suspeitar de tudo:

— Chocolate é bicho? Batata é o quê? Balinha é bicho? Tomate é o quê?

Quando, naquela noite fria de inverno, ouviu que milho verde NÃO era bicho... Abriu um sorriso de alegria e deu uma mordida de satisfação no saboroso vegetal...

Um comentário:

  1. salve o evolucionismo! afinal, ainda bem que não somos milhos! muito embora se possa brincar com eles também... esse pessoal é "di-fe-ren-te". acho que prefiro comer e ser comido.

    ResponderExcluir