terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Nos subterrâneos do DFTV: o medo da resistência.




A Globo quer desmantelar as representações que associam xs estudantes universitárixs à resistência estudantil? Dos desdobramentos dessa inquietação que a priori pode parecer incauta as/aos incautxs telespectadores do DFTV surgem algumas fortuitas especulações. A progressiva perda de audiência do canal em Brasília seria o único motivo para a pauta abjeta sobre "as orgias" que ocorrem nos subterrâneos da UnB? O arauto* - e seus sectários - das notícias ou seriam factóides do referido jornal estariam aflitos como os rumos da Universidade que em suas jornadas passadas/cotidianas combateu uma ditadura militar e seus reclames de um país na linha da moralidade? O crescimento vertiginoso da blogosfera, twitosfera e seus enfrentamentos aos arroubos e práticas fascistas da mídia não seriam motivos óbvios para a globo investir suas análises de generalizações e assim macular uma das múltiplas frentes orgânicas das redes sociais? Depois de uma eleição onde âncoras do canal aberto e comentadores da globo news explicitaram que o melhor projeto para o estado nacional seria um retorno ao iluminismo-neoliberal encarnado pelo candidato José Serra, essa investigação-reportagem ficha limpa nos corredores teria algum ranço de retaliação política, já que estudantes dessa instituição muitas vezes se posicionaram contra os balizadores medievos da campanha presidencial e as abordagens globais enviesadas de juizos de valores misóginos, racistas que tornavam a luta contra a ditadura; para a descriminalização do aborto; pelo reconhecimento do casamento de lésbicas e gays, pela reforma agrária, uma reivindicação panfletária sem espaço no ordenamento dos grandes temas discutíveis? 
A trajetória do canal e suas performances políticas alinhadas ao imaginário conservador e aos partidos políticos de direita do país foram e continuam sendo escancaradas aqui e ali por estudantes seja em suas subjetividades indivíduais ou em coletividades apartidárias/partidárias, em manifestações, festas, congressos, fóruns. A imagem de tv multicultural, democrática é desconstruída em tom festivo com frases, cartazes, paródias que desconcertam a hegemonia global que fomenta estereótipos, engendram lugares/verdades para pobres, negros, mulheres, trans, gays, lésbicas.
Entre os efeitos sociais desses sentidos veiculados nessa série discursiva (reportagem sobre os drogados da UnB) estariam os afastamentos de possíveis alunxs que coibidos por famílias cooptadas pela lógica da emissora dissuadiriam seus/suas rebentos de ingressarem nesse antro de devassidão, da comunidade que se ausentaria de cursos gratuitos, de debates dos mais variados assuntos, de moradores das regiões próximas que tem uma extensa área verde para caminhadas. O pânico social e o terror moral fomentados pelo DFTV são indícios de que não quiseram problematizar à questão do consumo de álcool e maconha naquele espaço de lazer e não de estudo como sublinhado, chamado centro acâdemico.  Ao estigmatizá-lxs entra em pauta a vontade/necessidade de regular para anular a potência criativa dxs estudantes. 
Na onda das satanizações de movimentos sociais, de interdições de temas tão caros como o aborto, casamento gay,  uma reportagem dessa se inscreve nas contas de um rosário jornalístico que outrora dispensava empatia, veículos à ditadura e hoje prefere tomar tudo que escape da plataforma “imparcial” como sujo.


*Me refiro à imagem recorrente de Alexandre Garcia que apresenta o DFTV. Conforme expõe Urariano Motta ao comentar o livro "No planalto, com a imprensa":

Ou aqui em Marco Antônio Kraemer, segundo assessor de Figueiredo: “Todos nós queríamos liberdade, tinha que acontecer. E era melhor acontecer, como vou dizer… sob controle. Era melhor do que explodir”. Alexandre Garcia, que esteve numa posição intermediária entre assessor do assessor e secretário do secretário de imprensa de Figueiredo. Ele assim se dirigiu, em suas primeiras horas de poder, ao general Rubem Ludwig: “Agora, gostaria de ouvir os seus conselhos de como proceder lá dentro, porque costumo vestir a camisa dos lugares onde trabalho”. Sincero o jornalista, sem dúvida.

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