quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As marcas materiais de uma peleteria:solidão, vingança, especismo e amizade em Pele e Osso de Luis Gusmán

Fonte: GELBC

"Como se fosse tão fácil mudar de pele” (Osso)

por Ludimila Moreira Menezes




Fundador da revista Literal (1973-1977) e com os seguintes romances publicados em espanhol: El frasquito (1973); Brillos (1975); Cuerpo velado (1978); En El corazón de junio (1983); La muerte prometida (1986); Lo más escuro del rio (1990); Villa (1995); Ni muerto has perdido tu nombre (2002); El Peletero (2007); Los muertos no mienten (2009). Desses em português: Vidrinho (1990); Villa (2001) e Pele e Osso que publicado no Brasil em 2009, trabalha com a representação de subjetividades excêntricas e apresenta discussões contemporâneas como o ativismo contra a matança de animais, o engodo das manifestações religiosas, o aparato burocrático do Estado na execução de projetos.
Com o aforisma: “Para estes dois homens, mesmo que não da mesma forma, o mundo tinha se tornado estranho” (p. 114), que trafega e indica algumas movimentações na narrativa, Pele e Osso, de Luis Gusmán destoa dos registros boêmios da Buenos Aires de turistas ávidos pelo consumo e apresenta personagens com dimensões que escapam das noções identitárias essencialistas sobre os moradores de grandes centros urbanos.
Sob esse aspecto, Pele e Osso, concentra investidas em um imaginário polimorfo de enredo fragmentado onde diabete, greenpeace, cocaína, reiki, performances identitárias, governo, tradição, amor, amizade engendram efeitos de sentido que desmontam fronteiras éticas, políticas e orgânicas.
Entre a tradição que regula sua continuidade no ofício de peleteiro, o estigma de diabético e os desdobramentos políticos da militância do greenpeace que o acua, encontra-se decalcado como um animal encurralado no fluxo narrativo fatalista de Gusmán: Landa.
Para além da romântica realidade incorruptível está o misterioso Osso, alcunha do homem desmemoriado à deriva entre a umbanda e a recém-conversão ao protestantismo, às voltas com o afastamento e traição da ex-mulher Rosa (com o líder espiritual Romero); o convívio forçado com uma mulher que se diz sua esposa; o passado de cocainômano e com o trabalho como fiscal da prefeitura no projeto da Secretaria de Meio Ambiente no rio Riachuelo.
Ao passar de uma imagem a outra, de um enunciado a outro, Gusmán evoca as contingências que atravessam seus personagens, os rastros de suas vontades, suas inquietações, agenciamentos. Landa e Osso, metidos em um pacto ligeiro onde o último deve incendiar o trabalho do primeiro, dois personagens unidos pela lógica do compromisso incendiário que se transfigura antes em lógica da amizade.
Nesse sentido, a aproximação desses personagens anuncia não só uma complementaridade dinâmica como traceja o espaço de vulnerabilidade que ambos estão inscritos. A urgência de causas, de sentidos sociais para Landa é um incômodo que atravessa toda a tessitura narrativa, assim como o desamparo existencial, o olhar crítico e o partidarismo religioso de Osso configuram escolhas, direcionamentos não óbvios na narrativa.
O encadeamento dos acontecimentos aliados à derrocada político-econômica da peleteria não só engendra o dístico Pele-Osso como lança Landa para um universo longe da solidão, da diabete, pronto para sediar em suas águas uma explosão ao Artic Sunrise do Greenpeace.
Cabe observar, que nas estratégias discursivas de Luis Gusmán a força que condensa as impressões desse urbano decadente, desses personagens que não habitam uma história teleológica reside nos diálogos (reveladores, melancólicos, engraçados, importunos).
Sobre a ausência de Osso (morto de uma maneira enigmática), enredada por um espaço instigante de especulações fica a reverberação da frase do folheto do Greenpeace: “Tanto o homem quanto os animais buscam proteção”(p. 21).

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