sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Meu amigo Cláudia Wonder






A performer, cantora, compositora, atriz, escritora e ícone do underground Cláudia Wonder, subverte todos os estereótipos na vida e na arte, escancarando de forma linda e sensível sua verdade interior na consciência transformadora da arte trangressora. Wonder em inglês quer dizer “milagre”, ou “prodígio”, ou ainda “maravilha”, “surpresa”, “espanto”.
Artista, ser humano, ativista e dona de uma reputação que nem todos os adjetivos seriam capazes de descrever, Cláudia começou sua carreira como roqueira, no movimento punk paulista do início dos anos 80. Vocalista das bandas Jardim das Delícias e Truque Sujo, emplacou temporadas em casas que marcaram época, como o lendário Madame Satã, onde se apresentava com "Vômito do Mito". No show, Cláudia ficava nua, usando apenas uma máscara animalesca em uma banheira de groselha.
Paralelamente, a artista, que inspirou referências da cultura brasileira como José Celso Martinez Corrêa, Cazuza e Caio Fernando Abreu, desenvolveu um sólido trabalho como atriz.

No teatro, participou de peças como "Ave Noturna", de Ronaldo Ciambroni, com direção de Alberto Soares, "Lobsalda, a Vampira Vulgar", com direção de Eduardo Curado, "Nossa Senhora das Flores", de Jean Genet, com direção de Luiz Armando Queiroz e Maurício Abudi, e "Erótica - Tudo pelo sensual" no Teatro Brasileiro de Comédia. No cinema entre outros filmes fez “O Marginal”, de Carlos Manga, "Dores de amor", do suíço Matthias Kalin e “Carandiru” de Hector Babenco. Na TV estrelou o teleteatro"Má Consciência", na TV Cultura.
Depois de morar na Suíça por longos 11 anos, Cláudia voltou ao Brasil em 2001 e gravou uma música sua na coletânea “Melopéia” de Glauco Mattoso em dueto com seu amigo Edson Cordeiro e junto a artistas renomados como Arnaldo Antunes e Itamar Assunção.
Atualmente a diva é tema do documentário "Meu amigo Cláudia", dirigido por Dácio Pinheiro, o nome do documentário vem de um texto de Caio Fernando Abreu, publicado originalmente no jornal Estado de São Paulo de 1986, em que homenageia sua grande amiga. Com bom humor e depoimentos emocionados de gente de peso como Sérgio Mamberti e Zé Celso Martinez, o filme faz um trajeto desde a infância e o descobrimento da sexualidade, até virar musa de cineastas e atuar em vários filmes e peças de teatro.

Nas palavras de Caio Fernando Abreu : Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível.

Por Daiversom Machado - daiversom.machado@emiolo.com


Você subverte todos os estereótipos como pessoa e como artista. Pra você o que é ser diferente?

Eu sempre quis ser uma pessoa original, nunca gostei da unanimidade, não que eu não goste de ser igual, eu me sinto igual a todo mundo, mas eu sempre gostei de fazer a diferença, isso é próprio do meu signo, eu sou aquariana, os aquarianos geralmente são pessoas originais. Inclusive eu lembro que eu era criança e assistia aqueles desfiles de fantasia de luxo e originalidade e eu sempre gostava mais de originalidade. Enfim, eu sei que sou muito criativa, mas falar pra você o que é ser diferente, não sei, eu acho que ser diferente é fazer a diferença, é ser você mesmo, é você não se dobrar aos ditames sociais e procurar ser o mais natural possível.

Me fale sobre toda aquela efervescência cultural da vanguarda paulista nos anos 80 na qual vc fez parte?

Foi muito bacana, porque foi justamente uma época muito efervescente na questão cultural, não só de São Paulo como do país e hoje em dia não se vê muito essa efervescência na noite, hoje é muito mais a coisa individualista que o culto é uma pessoa só, o DJ. Naquela época o bar Madame Satã, tinha um quintal, tinha a parte de cima, tinha o porão e ao mesmo tempo estava uma banda tocando no porão, uma cantora, um performer, um grupo se apresentando na parte de cima e no quintal um outro grupo fazendo mágica. Era efervescente não só pelos artistas, mas as pessoas estavam tomadas por um espírito criativo, a própria mudança política que estava acontecendo, talvez a conjuntura política estava fazendo isso com as pessoas, esse impulso de liberação, estavam botando pra fora de forma artística aquilo que estava reprimido a tanto tempo.


Como foi seu trabalho com o Teatro Oficina?

Eu trabalhei 4 anos com o Oficina e foi maravilhoso, foi minha escola de teatro, eu fiz aulas na Escola Macunaíma de Teatro, eu já tinha feito peças e tal e no Oficina fiz Nossa Senhora das Flores do Jean Genet que foi um marco no teatro de São Paulo dirigida pelo Luiz Armando Queiroz. Depois eu fui trabalhar com o Zé (o dramaturgo e diretor teatral José Celso Martinez Correa) que foi onde eu tive a minha escola de teatro, ali eu aprendi tudo enquanto artista e ser humano.

Você sempre esteve envolvida em militâncias, tendo inclusive contato com movimentos de direitos civis em outros paises. O que significa a luta por direitos iguais pra você?

É a luta por poder existir inteiramente, poder viver a sua vida de maneira integral, viver a liberdade e a palavra é essa, eu acho que um ser humano que não é livre não pode se realizar e nós estamos aqui para sermos felizes. Eu não me conformo e nunca me conformei com a desigualdade, porque se tem alguma lógica a gente entende, mais quando proíbem e não nos dão explicação para o que estão nos proibindo e você não encontra uma lógica por mais que você estude, por mais que você pense e reflita sobre o assunto, então isso significa que alguma coisa está errada. Você não vai me proibir uma coisa que você não me dá explicação lógica, e eu não encontro lógica no preconceito contra as diferenças sexuais.


Me fale sobre o documentário que fala sobre vc “Meu amigo Claudia”, premiado em festivais na Europa. O que é pra você ter sua vida e suas nuances retratados em um filme?

Tem sido maravilhoso, estreou em São Francisco e eu fui convidada pelo Queer Culture Center pra me apresentar no Trans March e fui recebida com todas as honrarias que uma pessoa importante poderia ser recebida, eu nunca tive tanto reconhecimento do meu trabalho em toda a minha vida, e isso em São Francisco que é o berço da militância gay. A meca do movimento GLBT mundial reconhecer isso pra mim não tem preço, foi realmente o evento mais importante da minha vida.

Como foi a experiência do livro “Olhares de Claudia Wonder”?

Foi muito bacana, foi a concretização do meu trabalho na G Magazine como colunista, pois no livro foram reunidos crônicas que foram publicadas na revista.


Fale sobre seus últimos trabalhos como cantora?

Eu lancei o CD Funk Disco Club que foi o primeiro disco solo, eu já tinha lançado duas coletâneas, o primeiro foi o Melopéia do Glauco Matoso, neste disco eu faço um soneto do Glauco Matoso em dueto com o Edson Cordeiro e depois teve uma musica minha no cd Body Rapture., que foi o primeiro disco de musica eletro nacional. Em 2009, ganhamos o premio revelação da nova musica brasileira, na Rádio Cultura no Programa do Solano Ribeiro. O Solano é a maior sumidade em matéria de musica no Brasil porque foi ele quem descobriu Elis Regina, Caetano Veloso, Gil, Chico Buarque, toda a nata da nossa musica foi ele quem lançou, ele que produziu todos aqueles festivais de musica da Record nos anos 60, um cara antenadíssimo, foi ele quem trouxe Michael Jackson para o Brasil naquela época dos Jacksons 5. Enfim, é o cara, e receber um premio das mãos dessa pessoa, realmente o que eu posso dizer é: pô valeu a pena. Na minha carreira na música estou muito feliz.

trailer do documentário "Meu amigo Cláudia":



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